(Uma resenha crítica da obra de JOAO UCHOA, O Equívoco, que eu escrevi há mais de 10 anos e estou desenterrando agora...)
A justiça é sua própria antítese. Sinônimo de uma ambiguidade insuportável. Ela apenas leva o nome, mas pouco tem dele, ou, quem sabe, nada. A partir do momento que se tornou injusta, corrompida, cruel, degradante, corrupta.
O Equívoco faz com que acordemos para essa realidade, de modo mascarada, instigando uma revolta terrível contra a mesma.
É um absurdo fazer parte de um mundo em que a pureza, como nos seus primórdios, encontra-se quase inexistente. Como diz Rui Barbosa, “o que faz a justiça é o ser justo. Tão simples e tão banal. Tão puro.”
Não há ser justo. Se fôssemos classificar o ser humano, que se tornou de fato tão egoísta, em sociedade, autoridades e criminosos, veremos que em nenhuma das categorias há justiça.
A sociedade, como mostra o conto Dois, tentando se passar por Justiceira, afim de alertar sua indignação, comete grave injustiça. É quase a mesma cena do povo gritando: “- Libertem Barrabas! Crucifiquem Jesus!”
As autoridades, como no conto Um, sempre “lavam as mãos.” Julgam de forma desonesta por serem covardes! Assim como cometem atrocidades das quais eles é que deveriam sofrer, por tamanha baixeza de caráter.
Os criminosos confundem-se, como nos diversos contos, com os que se dizem “donos da lei”. Como diz Carlos Novaes, “nada é o que parece ser” e “é fato que em quase todos os contos há um personagem fora da lei.” Por vezes, os policiais se tornam os criminosos, assim como as maiores autoridades que compõe a Justiça. Mas, que Justiça é essa?
Segundo o Aurélio, “justiça” é “a virtude de dar a cada um aquilo que é seu”, é “a faculdade de julgar segundo o direito e melhor consciência.” Infelizmente, são apenas meras palavras, não utilizadas, escritas num livro de significados.
Cada conto de João Uchôa é chocante, de se ficar arrepiado até a espinha. Como diz Millôr Fernandes, “vai até o profundo do ser desumano.”
É uma sucessão de injustiças, uma atrás da outra. Falta de moralidade, decência, valores... Como nos contos Sete, Vinte e seis e Trinta, onde o homossexualismo presente nos causa repugnância! Fazendo-nos refletir, enojadamente... Até que ponto chegou o ser humano?!
Percebe-se nos contos bandidos que há, nos personagens, ausência de amor, como um veneno mortal! Passando-se por donos da lei humana, esquecem-se da lei Divina, lei existente antes de qualquer outra, cuja base é o amor.
Mas, nesse mundo tão frio, desolado e escuro, o “Amor” soa com estranhamento... Como se vê no conto Trinta, onde o menino de rua não se permitiu ser amado, por desconfiança e medo de ilusão, rejeitando o carinho de um casal que estava disposto a dá-lo, e nem tão pouco amou. Fato que se pode notar ao final do conto, quando mata um casal de namorados por ódio, a troco de nada, simplesmente para não ser “enfraquecido e destruído” pelo amor.
Sendo que o amor... é a mais bela essência capaz de enobrecer um ser humano, a ponto de nos fazer praticar os mais sublimes atos!
Que seres são estes que trocam o certo pelo errado, o justo pelo injusto, o amor pelo ódio? É nítido o vazio que reina os corações...
Para se cometer erros tão grandes é porque os sentimentos humanos estão sofrendo de apoplexia! Como diz Shakespeare, sabiamente, “nunca a razão se deixou anular tanto pelo êxtase sem reservar um pouco de margem para ver melhor a diferença.”
É como se não pudéssemos esperar nada, nenhuma esperança. Novamente, Shakespeare diz, “sabemos o que somos, mas não sabemos o que podemos ser.” Tudo é incerto e inseguro, até mesmo a fé se deixou cegar.
Vê-se nos contos que a crueldade e a criminalidade atingem a todas as classes. Poucos têm muito e muitos têm pouco, ou nada têm. Inocentes vão para a cadeia enquanto os verdadeiros culpados escapam dela. Nem as condições de vida na prisão são favoráveis para se viver um homem; se antes eram animais, tornam-se monstros!
“Olho por olho, dente por dente”? Não! “Amai os vossos inimigos” ... Por maior que seja a crueldade no coração de um homem, todo e qualquer indivíduo deve ser tratado com dignidade e respeito. Essa é a diferença entre os seres que realmente são humanos.
Nunca haverá justiça se não formos justos. Sem justiça a sociedade preparará o crime e o criminoso o cometerá. Sem justiça formaremos homens para depois puni-los. Sem justiça crucificaremos sempre, como no primeiro conto, quem não veio revogar a lei e sim torná-la justa.
Se nossa justiça não se assemelhar à Divina, que é misericordiosa nos oferecendo o perdão, mesmo que não tire as consequências de nossos atos para que aprendamos, jamais será Justiça! E sim, um Equívoco.
Desse modo, para onde caminha a humanidade senão para o fim?
É de se ficar pasmo por se viver num mundo assim, e mais ainda, porque nada mudou nas últimas três décadas, a não ser para pior, pior que “Sodoma e Gomorra”.

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